ASTRO-BOBAGENS

João Luiz Kohl Moreira (editor)

A Grande Força e uns Errinhos

NO Globo, edição de 9/11/2007, página 34, na Seção de Ciência, Roberta Jansen sai com um belo artigo sobre fenômenos ao redor de buracos negros. Confirma-se o que já se desconfiava. Observou-se mas ainda carecemos de explicações mais detalhadas. Um bom artigo, belas imagens. Mas Roberta escorrega em dois pontos, pelo que pude observar. O primeiro, escorregão diz respeito a uma imagem que é nitidamente ilustração de um "flare" de um objeto tal como um buraco negro. Vê-se de "perfil" um pequeno disco de acresção e dois jatos simétricos muito finos, ambos projetados de maneira a vermos "linhas", talvez um pouco alargadas nos extremos. Pois bem, Roberta confunde isso com um "espectro". Menos, Roberta. Vê-se que você nunca viu um espectro.

Mais adiante, Roberta Jansen diz que os raios cósmicos, que sabidamente são partículas das mais energéticas que se conhece, viajam a 300 mil quilômetros por hora! Ah se fôsse, Roberta. Eu "matava" os raios no peito, e fazia embaixadinha com meu calcanhar direito, que não é o "bom".

Posso esclarecer?

Evidentemente, trata-se da velocidade da luz, em torno de 300 mil km/s. Mas o resto está bom. Finalmente um bom reporter científico na grande imprensa.

Vênus Maluco!

Revista Veja, Ed. 1931, n° 46, de 16 de novembro de 2005. Ao divulgar o lançamento da sonda Venus Express, a reporter Thereza Venturoli abre um “box”, entre outros, para dizer o que se quer saber indo a Vênus: “por que Vênus gira em torno do Sol no sentido inverso ao da Terra e ao dos outros planetas (à exceção de Urano)? Por que sua rotação é tão mais lenta que a do nosso planeta (cada dia venusiano corresponde a 243 dias na Terra)?” O QUÊ??!! Vênus gira em torno do sol no sentido inverso??? E Urano também??!! Digo-lhes com toda sinceridade, caros leitores, cheguei a me informar se era mesmo verdade! Afinal, tantos anos lidando com planetas como Vênus, além de Urano e eu não sabia disto!

Posso esclarecer?

Acho que a reporter confundiu movimento orbital e rotação. De fato, a rotação de Vênus é no sentido inverso. assim como Urano e também Plutão. Não é o que se dá com seu movimento orbital. Vênus, assim como todos os demais planetas “giram” em torno do sol no mesmo sentido (olhando de cima, no sentido anti-horário). Mas, agora: ir lá para entender por que ele “gira” no sentido inverso? Talvez seja para perguntar aos venusianos, que de acordo com a sua origem cultural poderão responder: “A gente não sabemos disso não, seu! Não é vocês que gira errado?”.

O “Cometão”

O jornal 'O Globo' em sua edição de 03/01/04, na Seção Ciência e Vida anucia o experimento em que a sonda Stardust passa pela coma do cometa Wild 2, um cometa novo, par coletar seu material. Seu título: “Pela primeira vez, nave captura fragmentos de cometas”. Até aí tudo bem até que o reporter entra nas “teorias”. Diz assim: “... De acordo com diversas teorias, o impacto de um cometa com a Terra teria propiciado o início da vida no planeta”. Como é que é? Que cometa seria esse? E o que ele teria trazido de tão especial para a vida começar na terra?

Posso esclarecer?

A verdade é que a terra teria sido bombardeada, durante sua existência, por milhões de cometas que foram os responsáveis pela presença de material orgânico em sua superfície, pois pelo modelo de origem dos planetas, tais elementos não tiveram oportunidade de se alojarem aqui. Somente aventando a hipótese da queda dos cometas e asteróides é que pode-se explicar a presença de tais elementos por aqui e que, obviamente, propiciam a existência da vida, já que sem eles a vida não seria tão óbvia.

Quando foi o Ano Zero?

A revista Superinteressante, em sua edição de dezembro de 2002, no artigo intitulado “Quem foi Jesus?”, na página 43, sob o parágrafo “Um Presépio Diferente” diz, a respeito da programação de uma suposta máquina do tempo, que ao escolher o “Ano Zero...” vai se constatar que Jesus já teria 4 anos. OK. Mas, acontece que o ano “0” nunca existiu. Se, na suposta máquina do tempo o elemento programasse a data para o ano zero, ele iria desaparecer da história e nunca mais se saberia dele.

Posso esclarecer?

Quando, em 525 dC, foi adotado o calendário juliano com a origem do ano na suposta data de nascimento de Jesus, o conceito de número zero ainda não existia e nossos matemáticos e calculistas se serviam dos algarítmos romanos para representarem os números. Portanto, quando se adotou o nascimento de Jesus, ou o que eles acreditavam que era, usou-se o ano I para representá-lo. Antes do ano I dC, foi o ano I aC. Portanto, se, como se sabe hoje, Jesus nasceu em IV aC, no ano III aC ele tinha um ano, em II aC, teria dois anos, em I aC, três anos e, finalmente, I dC, ele terá tido 4 anos.


Nota: Raul Berenguel, pesquisador convidado da Universidade Fernando Pessoa, Portugal, me corrige: “... Todavia, o esclarecimento dado não é correcto. Simplesmente, não existe ano zero. Quando Cristo nasce (assumindo que seja verdadeiro o acontecimento), tem início o ano 1. O primeiro ano completa-se quando a criança perfaz o ciclo de 12 meses. Esse é o motivo pelo qual, por exemplo, o ano de 1930 ("19") pertence ao séc. XX e não ao séc. XIX. Nesse período decorre o primeiro ano de vida da criança e não o ano zero de vida. Igualmente, é o mesmo motivo que leva a que o séc XXI só tenha tido início em 2001 e não em 2000, não obstante as garrafas de espumante abertas pelas estações de televisão”. Ele chama a atenção para o fato que o número zero, pelo menos em termos conceituais já existia. Cita o Wikipedia: “Contudo, o zero foi utilizado como um número por todos os computus (calculadoras da idade média) começando com Dionysius Exiguus em 525*, porém no geral nenhum numeral romano foi utilizado para escrevê-lo. Ao invés disto, a paravra latina para nada, nullae, foi empregada."


* Por sinal, o calculista responsável pela mudança do calendário. Nota minha.


Massacra o Buraco Negro

Em artigo da redação, sem assinatura, a revista Veja, edição 1774, ano 35, de 23 de outubro de 2002, nos apresenta uma louvável novidade dando conta da provável existência de um buraco negro no centro de nossa galáxia. Alguns lapsos de informação podem ser creditados à ignorância do(a/s) redator(a/e/s) no assunto. Ele(a/s) poderia(m) nos brindar com números, como a massa do tal buraco negro, por exemplo. Tudo bem. Ninguém é perfeito. Além disso, não é nada fácil redigir uma notícia sobre a qual não se está muito à vontade. Na ilustração, entretanto, encontramos os maiores atentados contra a informação. Erros de português nos levam a gerar conclusões absolutamente falsas. O(A/S) redator(a/s) começam com a primeira legenda: “As estrelas gigantes consomem toda a sua energia em apenas 10 milhões de anos. Então explodem (?!) numa supernova”. Ah é? Primeiro, me explica como é que uma estrela consome toda a sua energia. De onde vem essa energia? E depois explodem? E de onde ela tira energia, pois que a consumiu toda, para explodir? Uma explosão, estritamente falando, é a liberação súbita de excesso de energia acumulada. Se a estrela não tem mais energia, como ela pode explodir?

Em seguida, a legenda continua, ao lado de belas e inexoráveis imagens, “o que sobra da estrela concentra-se numa massa cada vez menor (??) e mais densa”. Eis outra contradição. Se a massa é cada vez menor, como ela pode ser mais densa? Se a massa dimimui, pelo que sei, a densidade terá que diminuir, não aumentar!

Posso esclarecer?

Em sua afobação e ignorância, o(a/s) redator(e/a/s) desprezaram o português mais simples e básico e, de quebra, massacraram o buraco negro. Vejamos o primeiro comentário: as estrelas, de fato, consomem energia em sua atividade, mas não a esgota. O que se esgota é o combustível nuclear. Num primeiro momento, o hidrogênio, submetido às extremas condições de pressão e temperatura, é consumido para produzir hélio e, secundariamente, entrar em uma cadeia produzindo vários elementos, processo conhecido como “cadeia do carbono”, pois é nele que o processo desemboca. Ao se extinguir o hidrogênio no interior do núcleo, onde se processa a fusão, há um rápido processo de colapso por autogravitação para, em seguida, dar-se o início da fusão do próprio hélio. Ao se consumir todo o hélio, a estrela, ainda com muita, muita energia, entra em colapso gravitacional, sem nada que se oponha até que atinge densidade comparável à do núcleo atômico, quando as forças agentes nesse regime entram em ação, provocando uma onda de choque magistral, iniciando o processo da supernova, na maior liberação de energia que se conhece atualmente.

Segundo, do processo explosivo, enquanto boa parte do material estelar é expelido, outro é “empurrado” para dentro do núcleo, e, como no caso, dependendo da massa de material envolvida, haverá um colapso implosivo sem nada que se oponha até se chegar em uma singularidade no espaço-tempo, como prevista pelas equações de Einstein, conhecida como “horizonte de eventos” ou “raio de Schwartzchild”, em homenagem a seu descobridor. É o regime do buraco negro.

E assim fica esclarecido.

Penteado Lunático

Sob o título: "É verdade que as fases da Lua influem no corte do cabelo?" A Revista SuperInteressante, Ano 15, N. 1, Janeiro de 2001, levanta a questão algumas vezes colocadas no Pergunte ao Astrônomo do ON. Colocando-se muito bem, diz que até hoje ninguém conseguiu provar nada a respeito. Para arrematar de vez com o problema, coloca a questão a Júlio Klafke, da USP. "Mas, se o astro influi até nas marés", argumenta a SI, "por que não acreditar que ele possa ajudar os fios da cabeça a crescer?" Resposta de Júlio: "É um caso totalmente diferente" (até aí eu concordo), "O oceano tem uma massa imensa (sic) e por isso é atraído pelo satélite". Esta última afirmação parece que não saiu da boca de Júlio. Parece ser a interpretação do que ele disse, pois a frase não está entre aspas.

Independente de quem tenha dito, trata-se de uma grande besteira. Teçamos, antes, algumas considerações.

Em primeiro lugar, a lua influi, sim. Não da forma esperada, através de uma conexão física. O corte de cabelo é um ato humano, logo, se os homens se deixam influenciar, então as fases da lua influem no corte de cabelo.

Em segundo lugar, a explicação atribuída ao colega Júlio Klafke não tem cabimento. Será que quanto maior a massa, maior será a maré? Então o planeta Júpiter, com gases e mares muitas vezes mais massivos que nossos oceanos deveriam apresentar marés muito maiores! Como Júpiter possui muitas luas, este planeta deveria se apresentar cheio de "calombos", rebolando-se todo como se estivesse jogando bambolê.

Posso esclarecer?

A verdade é que os oceanos ocupa uma superfície grande, tomando quase todo o nosso planeta (2/3 dele). A extensão do espaço que os oceanos ocupam é que faz com que apareça uma força diferencial entre seus extremos. A força de gravidade da lua é maior no lado da terra virado para a lua e menor em seu lado oposto. A variação do campo gravitacional da lua, associada com a rotação da terra cria um efeito sobre os oceanos que chamamos maré (não significa que não existe a maré terrestre).

Não existindo outro efeito do movimento da lua (a lua não tem campo magnético), e sendo nossas cabeças de tamanho minúsculo para sentir alguma diferença, não existe qualquer motivação física para a dependência do comportamento de nossos cabelos com as fases da lua.

O "mistério" da Lua...

Vemos em "O Globo", 2a. Edição de 7 de janeiro de 2000, página 31: "Menos mistério na Lua". Trata-se de um "box" para uma matéria sobre um eclipse da lua do dia 21/01/2000. O redator (sem identificação) começa por decretar um "mistério" que persegue os cientístas: A LUA PARECE MAIOR QUANDO PERTO DO HORIZONTE! A explicação parece ter sido finalmente dada por um físico da IBM que sustenta sua tese baseada em experiências no que parece ser um simulador qualquer. Tudo parece ser decorrente de efeitos psicológicos. Ora, nada tenho contra um físico fazer psicologia para "explicar" fenômenos astronômicos. Mas é preciso cuidado no que se fala para não desacreditar as três profissões de uma vez: o físico, o astrônomo e o psicólogo! Curioso é que a matéria não é assinada, misterioso é o nome do dito físico e não aparece nenhum astrônomo declarando que nunca entendeu porque a lua parece maior no horizonte. Enfim, uma matéria anônima em todos os sentidos. Ninguém aparece para assumir responsabilidade. Então eu pergunto: onde foi que o jornalista descobriu o mistério? Quem é esse físico e em que circunstâncias ele trabalhou?

Posso esclarecer?

Deixo os comentários abaixo como ilustração de como a gente se confunde facilmente. Essa resposta não é satisfatória. Se fosse como eu descrevo abaixo a lua e o sol apareceriam alongados na direção vertical ao horizonte. Não é, contudo, o que acontece. Para uma resposta mais apropriada, reporte-se à seção Tolas Perguntas. Lá, você poderá entender um pouco melhor o que se passa nessas condições.

O fenômeno do diâmetro aparente da lua, assim como o do sol, deve-se ao que chamamos de refração atmosférica diferencial. Não tem nada de misterioso nisso. Sabemos que tanto o sol quanto a lua possuem um diâmetro aparente de cerca de 30 minutos de arco. A atmosfera possui um índice de refração que provoca uma refração de cerca de 60" a 45 graus do zenith. Essa refração vai aumentando na medida que o astro aproxima-se do horizonte. De tal maneira que mesmo que o objeto esteja abaixo do horizonte em até cerca de 6 graus, a aparência é que ele esteja tangenciando o horizonte. Esse valor pode variar em função das condições atmosféricas. Observando a figura entenderemos porque temos a impressão de que a lua (ou o sol) são bem maiores no horizonte.






Três maiores descobertas: três mancadas...

Revista CartaCapital, Ano VI, n. 113, edição de 22 de dezembro de 1999. Na Seção "Evolução e Saúde", o médico Drauzio Varella cita o que, para ele, são as três maiores descobertas do século: a relatividade geral, a mecânica quântica e o DNA. Espertamente, Dr. Varella engloba no primeiro tema a gravitação universal de Newton, e a lei do afastamento das galáxias de Edwin Hubble. Com a destreza de um erudito, Dr. Varella percorre os temas com razoável desenvoltura, citando datas e eventos. Assim ele diz sobre o insight de Newton: "Não é a maçã que cai, é uma força que puxa a maçã para o centro da Terra". Está errado? Creio que ninguém terá coragem de dizer que Newton não pensou uma coisa assim. O problema é que esse não foi o insight de Newton. Melhor dizendo, não foi o principal. A grande sacação de Newton, como se sabe é que vendo a maçã cair no quintal de sua casa, Newton percebeu que a força que faz a maçã cair na terra é a mesma que faz a lua orbitar em torno de nosso planeta. Daí vem sua famosa experiência imaginária em que ele se coloca num dos polos da terra e começa a atirar pedras com forças cada vez maiores. "Se lançarmos uma pedra com força suficiente", dizia ele, "ela percorrerá toda a extensão da superfície de nosso planeta até atingir exatamente o polo oposto. Qualquer força mais intensa do que esta fará com que a pedra passe pelo polo, retorne pelo lado oposto a que viajou a primeira metade de seu percurso e voltará direto a minhas mãos". Com isso Newton mostrou que a gravidade da terra era a responsável tanto pela queda dos corpos em sua superfície quanto pela órbita da lua em torno da terra. Para deduzir a expressão matemática dessa força, Newton foi mais longe e intuiu que os corpos providos de massa provocavam essa força. Veio o segundo lance genial de Newton, quando deduziu o famoso "inverso do quadrado das distâncias" a partir das já conhecidas "leis de Kepler" para os planetas.

Seguindo o roteiro proposto, o Dr. Varella aponta o início do século XX e Albert Einstein. Segundo o doutor, Einstein afirmou: "Se a força da gravidade é conseqüência de campos gravitacionais espalhados por todo (sic) os cantos do universo, a estrutura e evolução do universo estão indissoluvelmente ligadas". Reputa Dr. Varella, ser esta a primeira grande descoberta do século. Não serei eu a contestar, pois como ele mesmo provou em sua coluna, é dotado de uma razoável erudição. Contudo, os conceitos da física parecem lhe ser um tanto misteriosos. Haja visto o que parece ter sido o que Dr. Varella entendeu da relatividade geral. Para começar, não foi exatamente no início do século que A. Einstein formulou a referida relatividade geral. Foi um pouco mais tarde. No início do século, Dr. Einstein estava às voltas com a compreensão da natureza da luz, que lhe incomodava sobremaneira. Foi dos paradoxos que ele próprio se colocou que nosso primo genialis elaborou as bases da relatividade restrita, esta, inicialmente chamada de "Eletrodinâmica dos Corpos em Movimento". Quanto à sacação de Einstein, creio ser um tanto diferente do que o Dr. Varella enunciou. Primeiramente não há como contestar a verdade que o Dr. Varella colocou na boca de Einstein, quem - novamente tenho de reconhecer - deve tê-la dito em algum momento. Mas, "again", não foi essa a grande "frase" de Dr. Einstein. O que disse, Einstein, então? Muitas coisas (assim como Newton). Quase todas elas corretas. A principal, que o levou à relatividade geral foi que "a física que descreve os corpos sob aceleração é a mesma que a que descreve os corpos sujeitos à ação gravitacional". Daí ele elabora uma experiência imaginária (os gênios sempre usam experiências imaginárias) de uma pessoa dentro de um elevador fechado. Ela não saberá distinguir, a priori, se a força que ela sente exercer em seus pés é da aceleração do elevador em movimento no espaço ou se o elevador estando em repouso a gravidade está a exercer essa força. Interessante notar, que tanto Newton quanto Einstein enunciam suas geniais descobertas reunindo dois fenômenos sob uma só entidade. Newton unificou a queda dos corpos e a órbita dos planetas. Einstein unificou a chamada "massa inercial", aquela que oferece resistência quando se lhe aplica um esforço e a "massa gravitacional", aquela que provoca o "peso" em uma balança. Foi unificando essas massas, que eram enervantemente as mesmas do ponto de vista fenomenológico, que Einstein se "obrigou" a costruir o "tensor espaço-tempo" e a "função fonte", base para a nova teoria que construiu.

Finalmente, no que diz respeito às descobertas da física (de DNA eu entendo muito menos que o Dr. Varella, de física), nosso resenhista coloca a lei do afastamento das galáxias, de Hubble, também conhecida por "lei do redshift" por causa do efeito que essa afastamento provoca nos espectros das galáxias. Diz o Dr. Varella que o Sr. Hubble descobriu que "os corpos celestes se afastavam uns dos outros em velocidade constante". Não é verdade. Nem o Sr. Hubble descobriu isso, nem os corpos se afastam com velocidade constante. Para começar, a descoberta de Hubble é válida para o universo em larga escala. Não vamos procurar afastamentos entre o sol e a terra, ou a lua e a terra pois vamos nos frustrar. Se há um afastamento, ele é absolutamente imperceptível. Hubble observou seu efeito para distâncias muito grandes. O que Hubble enunciou, a partir de suas observações, parece-me mais uma conjectura que deu certo do que uma lei exata. Sua lei diz que as galáxias se afastam entre si e da nossa em uma relação diretamente proporcional à distância. Em outras palavras:

onde H é conhecida como a constante de Hubble. Desde sua enunciação muito se debate sobre o valor exato da constante de Hubble. Sabe-se que gira em torno de 100 km/s /Mpc. Já chegou a valer metade. Muitos a adotam por valor numérico entre 75 e 80. Mas o que se pode ver é que essa velocidade aumenta na medida que os corpos estão mais distântes. Apesar da imprecisão da medida de H adotou-se a lei de Hubble como verdadeira graças à teoria de Friedmann que demonstrou que esse fenômeno era decorrente da necessidade do universo manter-se homogêneo.

O que é 1 atm?

Na SuperInteressante, Ano 13, n. 11, página 17, seção Supernotícias. O pessoal de lá declara que a definição de 1 atmosfera é a pressão que 1kg exerce sobre 1cm2.

Esperem aí. Não faz muito tempo que frequentei a escola (30 anos?). Naquele tempo ensinavam que 1 atmosfera é a pressão equivalente àquela que exerce uma coluna de 760mm de mercúrio, em CNTP (Condições Normais de Temperatura e Pressão). Se entendi bem, o pessoal da S.I. deixou implícito, na definição deles que aquela é a pressão que o ``peso'' de 1kg exerce sobre 1cm2 na aceleração gravidade padrão (A memória me trai. É aquela obtida em Paris, Greenwich, ou no equador no meridiano de Paris ou Greenwich? Enfim, acho que é de 9.83m/s2).

Pelos cálculos que fiz, se 1atm é a que eu aprendi, então, em termos de unidades coerentes:

Sendo a densidade do mercúrio, segundo Halliday, Resnick e Walker, Fundamentals of Physics, 5th edition, part 2 igual a em CNTP. Se 1atm é como a S.I. define:

Como vêem, há uma pequena mas irritante diferença. Mas parece que eu me aproximo mais da verdade. Segundo o mesmo Halliday et al, o valor adotado para 1atm é: .

Ihh! UUhh!

Não é um assunto específico da astronomia mas cabe um comentário. Na revista SuperInteressante, n. 121, página 65, sob o título Imaginário eletrizante vem a seguinte nota:

``Primeiro os números eram reais (inteiros, as frações e mesmo os decimais não exatos nem periódicos). Depois surgiram os imaginários: as raízes de negativos, às quais é difícil agregar um conteúdo, mas funcionam. O i (raiz quadrada de -1) é um deles. Ele está na fórmula que calcula a corrente elétrica (P=iU, onde P é a potência e U o campo elétrico (sic))''.

Puxa! Até parece o ``Samba do Crioulo Doido''. Creio que faltou ao pessoal da Super a idéia de consultar um especialista. Qualquer professor de física do 2o. grau poderia ajudar.

Posso esclarecer?

A fórmula da potência, a que se refere a revista, possui, de fato a forma apresentada, através dos símbolos literais. Engana-se, porém, o redator quando diz que o ``i'' é o número imaginário. Uma simples análise dimensional derruba qualquer dúvida. Sendo ``P'' a potência e ``U'' o campo elétrico (ups!) grandezas reais, ou seja, pertencentes ao conjunto dos números reais, a relação entre elas não pode dar um número imaginário. Se o que a revista sugere é o que estou pensando, estamos tratando da relação da potência obtida de um dispositivo elétrico devido à diferença de potencial em seus terminais. Se se trata da lei de Ohm, essa é a potência dissipada, se o dispositivo é um motor, potência mecânica produzida, se for um gerador, será a potência consumida. Sendo assim, a fórmula correta relaciona a potência com a corrente elétrica e a diferença de potencial elétrico.

De fato, os números complexos (reais + imaginários) são utilizados na teoria da eletrodinâmica a três por dois. Assim o é na descrição dos fenômenos em circuitos RLC, por exemplo. Nesse caso, dispositivos com características reais (mensuráveis) ganham correspondentes grandezas complexas: impedâncias, capacitâncias e indutâncias são grandezas complexas que descrevem características eletrodinâmicas de resistências, capacitores e indutores combinados. Mas potência, essa será real, sempre.

Sendo assim, realmente temos P=iU, mas colocando os pingos nos i's, Pé a potência, i a corrente elétrica e U a diferença de potencial.

Gravidade em cheque?

A Revista SuperInteressante, n. 134, edição de Nov/98, sai com uma ``pérola'' na coluna ``Supercurtas'', pag. 14:

``Uma pequena nave começou a abalar um dos mais sólidos pilares da Física - a lei da gravidade. A sonda Pionner 10, lançada em 1972 para sobrevoar Júpiter, já está saindo do Sistema Solar, mas ainda responde aos sinais enviados pelos terráqueos da Nasa. A monotonia dos bips foi quebrada quando os especialistas perceberam que a sonda está freando. Estranho, porque não existe por ali nenhum corpo que pudesse segurá-la com sua força gravitacional. E não é só a Pionner 10 que sofre os estranhos efeitos. A Pionner 11, que também escapa do Sistema Solar, a Ulisses, que estuda o Sol, e a Galileu, girando em torno de Júpiter, também estão se movendo de modo suspeito. Talvez a gravidade não seja tão bem conhecida como se pensava''

A dita coluna não é assinada, nem sabemos o seu responsável. Mas é uma irresponsabilidade vir com essa desinformação: com uma linguagem ``experta'' o autor, a partir da constatação da NASA que 3 sondas, a Pioneer 10 e 11 e a Galileu estão ou freando ou com movimentos muito estranhos, conclui que a indefectível lei da gravidade não é bem assim como a gente pensava... Ora, ora, pessoal da Super, não é assim que se raciocina em ciência. Se o fosse, a lei da gravidade já tinha caído em desgraça há muito tempo! Outras teorias também encontrariam o mesmo destino.

Pelo tom da nota, o leitor é levado a pensar que tal conclusão partiu da NASA.

Posso esclarecer?

A dita nota diz que a Pioneer 10 está freando. Até aí, nenhuma novidade. Para uma sonda que está saindo do sistema solar, nada mais natural que ela esteja sofrendo uma desaceleração devido à gravidade desse próprio sistema solar. Isso, acho que qualquer estudante do 1o. ano de física ou engenharia sabe calcular. Melhor informaria o colunista se dissesse que a sonda está desacelerando mais do que se esperava. Mas, mesmo assim, e daí? Foi a partir de ``movimentos estranhos'' de Urano que se descobriu Netuno; e como este também se movimentava ``estranhamente'', tanto insistiram que descobriram Plutão. E não é que os movimentos deles todos, levantados com precisão milimétrica, indicaram ainda a presença do recém descoberto ``Cinturão de Kuiper''! Não é melhor pensar que existem objetos ainda não observados a perturbar os perfeitos movimentos dessas sondas? É mais lógico, mais econômico e deixaríamos em paz Sir Isaac Newton em seu túmulo secular.

Agora, se foi a NASA que divulgou a conclusão, ela deve se retratar imediatamente. É uma tremenda barrigada!

Cosmologia Astrológica

Nosso correspondente Mario Barbatti coletou uma pérola do Jornal "O Globo". Eis seu despacho:

Em O Globo online de 21/07/2003 - 20h23m saiu a seguinte nota:

Município será sede de instituto de cosmologia
Selma Schmidt- O Globo

"RIO - O ministro da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, anunciou nesta
segunda-feira, durante a abertura do X Marcel Grossman Meeting (MG10), a
criação do Instituto Nacional de Cosmologia, Relatividade e Astrofísica
(ICRA BR), que contará com recursos da Comunidade Européia e o apoio dos
governos da Itália, Armênia e Vaticano, do Internacional Center for
Relativistics Astrophisics (ICRA) e da Unesco. O órgão funcionará no Rio de
Janeiro e aproveitará as instalações do Centro Brasileiro de Pesquisas
Físicas (CBPF/MCT).

A cosmologia é o ramo da astrologia (sic) que estuda a estrutura e evolução do
universo em seu todo, preocupando-se tanto com a origem quanto com a
evolução dele.

Com essa decisão, o Brasil será o segundo país a ter um instituto de
Cosmologia. O dos Estados Unidos foi criado este ano, sem a participação do
ICRA. Nem os países que fazem parte do ICRA e que possuem os mais relevantes
trabalhos científicos na área possuem um instituto."

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